quarta-feira, setembro 26, 2007

 

A Falta de Pachorra

Estou a atravessar a fase do "que se lixe!". Não tenho pachorra para argumentar com os obcecados cristãos que por aqui passam que, na sua presunção egocentrista, acham que sou ateu apenas em oposição à religião deles. Puro disparate.

Encontro-me, portanto, numa fase que me parece de transição. Já referi anteriormente que não subscrevo um ateísmo estilo imprensa cor-de-rosa. Agora, sinto-me desmotivado, mais ou menos pelas mesmas razões, em argumentar com os comentadores beatos que apenas sabem refutar as minhas ideias em particular ou o pensamento ateu em geral com textos bíblicos, perfeitamente desenquadrados e cheios de bolor... Será que acham que ao citarem excertos da bíblia passam a ter mais credibilidade?

Assim, gostaria que, de uma vez por todas, os cristãos de passagem se mentalizassem que neste blog a sua crença é tratada por mim como uma entre várias, não tendo qualquer lugar de destaque, uma vez que se trata de apenas mais uma das fantasias que assola o mundo com mentiras, obscurantismo e estagnação.

(Publicação simultânea: Diário Ateísta / Penso, logo, sou ateu)

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segunda-feira, setembro 17, 2007

 

Um pouco mais de coragem

O Henrique Raposo critica a mutilação genital feminina (MGF) e atribui-a ao islão. Ora, como sublinham a Shyznogud e o Tiago Mendes, a MGF está longe de ser exclusiva do islão. A excisão do clítoris é praticada entre cristãos etíopes, judeus da mesma região e animistas. O que não diminui a monstruosidade da prática, nem iliba o islão (ou as outras religiões envolvidas), de responsabilidade: todas estas religiões partilham a fobia (ou terror) pelo prazer das mulheres, e a MGF é útil a cada uma delas para manter a sexualidade feminina controlada. Conclusão: não é a partir de uma ou outra destas religiões que se critica a MGF, mas sim a partir de conceitos exteriores às religiões (como a liberdade individual ou o direito das mulheres ao prazer).

No entanto, se a excisão do clítoris não é um mandamento religioso, mas sim uma tradição cultural de várias etnias africanas, já a mutilação genital masculina (circuncisão) é um mandamento religioso comum ao judaísmo e ao islão. Tem a sua justificação religiosa na «aliança» mitológica estabelecida entre «Deus» e Abraão no capítulo 17 do «Génesis». Não tenho a menor dúvida de que se trata também de uma prática abjecta, quando feita a crianças e sem razões médicas, e que deveria ser condenada pela lei de qualquer país civilizado. A circuncisão pode conduzir à morte (mesmo quando realizada em países medicamente avançados), e, embora não impossibilite o prazer sexual em todos os circuncisados, limita-o para toda a vida (diminui a área do pénis de que se pode tirar prazer, dificulta a masturbação numa maioria de circuncisados, e pode causar várias disfunções sexuais, incluindo a impotência). Quem se preocupa com uma mutilação genital, deveria preocupar-se, em boa lógica, com a outra. Ou será que quem nasce numa religião abraâmica perde o direito à sua integridade física?

[Diário Ateísta/Esquerda Republicana]

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quarta-feira, agosto 29, 2007

 

O contexto

Charles Darwin afirmou:

«Supor que o olho com todos os seus dispositivos para ajustar o foco a distâncias diferentes, para admitir quantidades de luz diferentes, e para a correção de aberração esférica e cromática, podia ter sido formado pela seleção natural parece, confesso livremente, absurdo no mais alto grau.»

Muitos criacionistas utilizam esta citação para alegar que nem o próprio Darwin acreditava na sua teoria da selecção natural.
Para lhes responder, os seus interlocutores não se limitam a afirmar que a citação está fora do contexto. Eles mostram-no:

«Supor que o olho com todos os seus dispositivos para ajustar o foco a distâncias diferentes, para admitir quantidades de luz diferentes, e para a correção de aberração esférica e cromática, podia ter sido formado pela seleção natural parece, confesso livremente, absurdo no mais alto grau. Quando foi dito pela primeira vez que o sol estava parado e o mundo girava à sua volta, o senso comum da humanidade declarou que essa doutrina era falsa; mas conforme todos os filósofos sabem, em ciência não se pode confiar no velho lema Vox populi, vox Dei. A razão diz-me que se for possível mostrar que existem numerosas gradações desde um olho simples e imperfeito até um olho complexo e perfeito, cada gradação sendo útil para o seu possuidor, como certamente é o caso; se, além disso, o olho alguma vez variar e as variações forem herdadas, como certamente também é o caso; e se tais variações forem úteis para qualquer animal sob condições de vida em mudança, então a dificuldade em acreditar que um olho perfeito e complexo podia ser formado por seleção natural, embora insuperável pela nossa imaginação, não devia ser considerada como subversiva da teoria.»

Quando se cita um texto, por forma a dar a entender que o seu autor afirma algo, quando na verdade ele pretende afirmar o oposto, ou algo muito diverso, isso é grave. Quem considera que a citação trai a mensagem do autor deveria tentar esclarecer os leitores, referindo em que medida é que o contexto desmente a ideia que se tentou passar através da citação.


Há casos em que isto não se sucede. Quando nada no contexto em que uma afirmação foi feita desmente o seu sentido, torna-se muito complicado sustentar a acusação de retirar a citação do contexto com informação, provas, ou razões sérias que sustentem essa acusação.
Em vez disso fazem-se acusações vagas, apela-se a informação que se deseja desconhecida da audiência, sem nunca a concretizar, para que a audiência acredite na acusação, mesmo sem nenhuma razão para o fazer.

Isto obviamente acontece em vários domínios do debate público. Políticos que desejariam não ter dito uma asneira qualquer, apelam ao contexto, mesmo quando nada no contexto os desculpa. Desde afirmações racistas, até afirmações sexistas, homofóbicas, intolerantes, existe sempre a justificação do contexto.
Mas essa justificação é vazia quando nenhum esclarecimento é dado sobre em que medida é que o contexto demonstra quanto a citação pode ser enganadora.


Mas se escrevo este artigo neste blogue, não é por acaso. É porque não há nenhum domínio do debate público - nenhum! - no qual tantas vezes surja a acusação injustificada das citações retiradas do contexto, como o tema da religião.

Suponho que isso aconteça porque a mensagem do livro sagrado dos cristãos é flagrantemente incompatível com os valores humanistas que as nossas sociedades dizem abraçar. A Bíblia exorta os crentes a matar quem trabalha ao Sábado, quem comete adultério, quem tem outra religião, etc... Não há nada no contexto literário, histórico-cultural, nenhuma alegação de erro na tradução, nada que desminta tais exortações.

Assim sendo, muitos cristãos foram sendo habituados a defender a mensagem do seu livro sagrado fazendo alegações vazias a respeito do contexto e da interpretação. E de tanto fazerem tais acusações, já as fazem levianamente a respeito de tudo. Um Papa disse que a democracia é incompatível com o catolicismo, não há problema, isso tem um contexto. A menorização da mulher, a luta contra o divórcio, os ataques à laicidade, o que quer que seja, nunca preocupa tais crentes: há sempre um contexto.

Até o Mein Kampf tem um contexto, mas isso não justifica que eu deixe de considerar que Hitler era um racista intolerante, mesmo sem ter lido essa obra. Se um racista qualquer me vier acusar de «estar a ver as coisas fora do contexto», exijo-lhe que sustente tal afirmação.

O mesmo posso dizer a respeito das obras daqueles que directa ou indirectamente lançaram as fundações da inquisição. Conheço muitas passagens que revelam intolerância, obscurantismo, confusão intelectual. Serei eu que estou a entender mal? Estarei a ler essas passagens fora do contexto? Mostrem-mo.
Até lá são acusações vazias.

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sábado, agosto 18, 2007

 

Observação

Acreditar na existência de sereias pode ser menos comum do que acreditar na ressurreição de Jesus, mas não é menos razoável.

Não existe qualquer indício a favor da ressurreição de Jesus mais forte que os indícios a favor da existência de sereias.

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terça-feira, julho 24, 2007

 

O Mistério da Santíssima Trindade



Quem crê no «mistério» da Santíssima Trindade, crê que:

1) Jesus Cristo é Deus
2) O "Pai" é Deus
3) O "Espírito Santo" é Deus

4) Deus é único

5) O "Pai" não é o "Filho", nem o "Filho" é o "Pai"
6) O "Pai" não é o "Espírito Santo", nem o "Espírito Santo" é o "Pai"
7) O "Filho" não é o "Espírito Santo", nem o "Espírito Santo" é o "Filho"

Sucede-se que a identidade é transitiva. Se "A é B" e "B é C" podemos concluir que, nesse contexto, "A é C". Não há volta a dar.
Assim sendo, de acordo com a lógica, a aceitação das proposições 1, 2 3 e 4 implica a negação das proposições 5, 6 e 7. Logo, a conjunção de todas estas proposições tem um valor lógico conhecido: falso.
Aceitá-las a todas é como aceitar que 2+2=5.

Aquilo que os adeptos deste "Mistério" alegam é que é por isso mesmo que ele é chamado de "Mistério": não está ao alcance da nossa compreensão. Para a nossa lógica humana limitada isto não faz sentido, mas isso é porque não temos acesso a este "Mistério", que não o é para Deus.
Fora das limitações da lógica humana, conhecendo o pensamento omnisciente de Deus, o "Mistério" da Santíssima Trindade não tem nada de misterioso: é claro como a água.

Para muitos dos que não crêem neste mistério parece incrível que esta pseudo-justificação funcione para que as pessoas aceitem algo mais absurdo que "2+2=5".

Mas funciona.

É este o poder da religião, e a sua capacidade de relegar a lógica e a racionalidade para segundo plano, sempre afirmando não o fazer. «É uma outra Racionalidade, mais ampla», alegam. Eu chamo-lhe duplipensar. Como bem observou Orwell no 1984, uma comunidade treinada para aceitar proposições contraditórias é mais permeável à ditadura e à opressão.

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quinta-feira, fevereiro 08, 2007

 

Porque não sou um cristão cultural

Nenhum dos autores do Diário Ateísta é cristão, no sentido rigoroso do termo: acreditar que «Jesus Cristo» foi a encarnação de «Deus». (Se acreditássemos na divindade de «Cristo», seríamos crentes, como é óbvio!) Mas eu também não sou cristão no sentido cultural, de considerar «Cristo» o maior pensador da história da humanidade, ou de considerar o cristianismo o melhor dos sistemas éticos. Pelo contrário, falta-me na cultura cristã uma defesa clara da liberdade, da tolerância para com aqueles que não seguem o caminho de «Cristo», e da igualdade independentemente das crenças. Mais. Consigo facilmente pensar numa dezena de pensadores que são mais importantes para mim: Voltaire, Thomas Paine, Robert Green Ingersoll, Antero de Quental, Tomás da Fonseca, Albert Camus, Bertrand Russell, Carl Sagan, Richard Dawkins, Henri Peña-Ruiz.

Há ainda um outro sentido, biográfico, em que não me posso considerar um cristão cultural: não fui baptizado, nunca pertenci a nenhuma igreja cristã. Num sentido muito preciso, posso dizer que nunca fui cristão.

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