O senhor Sik Kok Kwong, líder dos budistas de Hong Kong,
afirmou que «
para os budistas, disparar contra monges inocentes é como derramar sangue de Buda», e que «os responsáveis por isso irão para o inferno de Avici» (que é o reservado para os piores crimes).
Que raio de ideia. Quero lá saber do sangue do Buda. Matar pessoas é matar pessoas, sejam monges ou não, estejam vestidas de laranja ou não. Será que um monge é algo mais do que uma pessoa?
Etiquetas: budismo, clericalismo
«
Este documento é inconstitucional porque viola a Concordata»
(José Nuno, coordenador das capelanias hospitalares, em declarações
à Rádio Renascença).
Etiquetas: clericalismo, humor
Duas mulheres sauditas
responderam com violência depois de abordadas pela Polícia da Comissão para a Promoção da Virtude e Prevenção do Vício, que criticara a sua forma de vestir «desapropriada» (estariam de cara à mostra?). Terão gritado insultos e atacado a polícia com «spray» de pimenta.
Esperemos que este género de resposta se generalize. Que as hormonas as libertem da opressão das «Comissões de Virtude». E que Epicuro e Voltaire iluminem o caminho das mulheres sauditas.
Etiquetas: Arábia Saudita, clericalismo, Islão
O senhor Kenzin Gyatso (conhecido por «Dalai Lama») estará em Lisboa de hoje até domingo. É apresentado simultaneamente como o principal representante de um país invadido e oprimido pela ditadura chinesa, e como um líder religioso. É, desde logo, lamentável que exista essa confusão: seria preferível que não se confundisse a promoção dos direitos fundamentais dos tibetanos com a propaganda de uma opção espiritual. Mas é, portanto, da maior conveniência recordar
o Tibete de que ele foi o monarca absoluto: uma teocracia feudal, em que ele era simultaneamente líder político e religioso, onde os mosteiros possuíam a quase totalidade da terra, assim como toda a autoridade política, judicial e policial, a maioria dos camponeses eram mantidos em servidão (senão mesmo em escravatura), o rapto de crianças pelas ordens religiosas era considerado normal, e os castigos corporais (amputação de mãos, furar olhos, chibatadas) eram a forma mais corrente de administrar «justiça». O Tibete governado pelo ditador Kenzin Gyatso era, portanto, uma teocracia opressiva e miserável. O Tibete ocupado pela China, contudo, sofreu um genocídio criminoso (morreram, provavelmente, centenas de milhares de pessoas), e ainda hoje
existem limitações inaceitáveis à liberdade de religião (mesmo se os maiores rigores do ateísmo de Estado já foram, felizmente, abandonados). A administração dos mosteiros, assim como a admissão de monges e freiras, é hoje controlada pelo Estado chinês, e muitos religiosos que desafiam este totalitarismo estatal são presos e torturados. A doutrinação dos recalcitrantes é sistemática e compulsiva. Infelizmente, nada disso é diferente do que se passa noutras regiões da China. E a condenação da ocupação chinesa não desculpa a «romantização» do regime teocrático que o senhor Kenzin Gyatso liderou no Tibete.
Nota final: a vida não é só desgraças, e existe o ridículo da religião budista para nos animar. No Público de hoje, um senhor chamado Stewart Walters garante-nos que a «estratégia» chinesa de «controlar a próxima reencarnação do Dalai Lama» estará condenada ao «fracasso». Porquê? Sentem-se bem nas cadeiras antes de ler: «o Dalai Lama já disse claramente em várias ocasiões que, se a situação no Tibete se mantiver, a sua reencarnação terá lugar fora do Tibete e longe do controlo das autoridades chinesas». Pronto, já podem rir.
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Essa figura de referência do clericalismo nacional que é João César das Neves virou-se contra a República
no seu artigo de hoje:
«Por cá, a república, cujo centenário se aproxima, decretou uma sistemática perseguição religiosa na linha do ateísmo oitocentista.»
Nunca é demais repetir: quando os clericais falam em perseguição a propósito da República, isso significa que consideram que um Estado sem religião oficial é «perseguidor», que um Estado em que os sacerdotes não são pagos pelo Estado está a «perseguir a religião», que ninguém ir para a prisão por «delito de blasfémia» é «perseguir o cristianismo», que legalizar o divórcio é «perseguir» a ICAR, e que não haver religião obrigatória na escola pública é ateísmo de Estado. Na realidade, o raciocínio dos clericais é cristalino a partir do momento em que compreendemos que, para eles, Estado que não obriga os cidadãos a serem e comportarem-se como católicos está a perseguir o catolicismo. Não obrigar é perseguir.
O grande César diz-nos ainda que «olhando a cultura oficial, ninguém diria que vivemos num país cristão». Será? Se assumirmos que por «cultura oficial» se entende aquela que é promovida pelo Estado, temos: largas dezenas de templos católicos mantidos e subsidiados pelo Estado; centenas de escolas com professores de religião pagos pelo Estado; a TV pública com presença regular de um sacerdote católico no RTP1 de manhã, e com um espaço específico para as religiões da parte da tarde no TV2; transmissão das cerimónias obscurantistas de Fátima todos os dias 13 de Maio a Outubro, e de missas dos católicos todos os domingos do ano... Se isto demonstra que «as manifestações da civilização cristã são silenciadas ou distorcidas», então tremo só de pensar no que seria necessário para que o nosso amigo Neves não se dissesse «perseguido»...
[Diário Ateísta/Esquerda Republicana]
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Na última edição do
Expresso, o militante clerical João Carlos Espada
saiu em defesa do catolicismo em geral e da variedade fatimista em particular. Diga-se que eu
costumava apontar este ideólogo da direita mais extrema como um dos maiores inimigos do pensamento crítico e da herança iluminista e científica em Portugal, a par do inefável
João César das Neves e do obscurantista
Boaventura Sousa Santos.
Infelizmente para quem o aprecia, John Charles Sword tem-se limitado nos últimos anos a perorar sobre a obrigatoriedade da gravata e a produzir exortações ao «cavalheirismo» e ao consumo de chá, temas a propósito dos quais consegue sempre citar quatro ou cinco filósofos ingleses ou políticos neoconservadores num único parágrafo. Em suma, embora a sua influência
não cesse de aumentar, a sua combatividade tem
declinado.
O que diz Espada desta vez? Que a recente «manifestação» de Fátima foi «não política» e que o fim das ditaduras no sul da Europa e na América Latina foi parte dos «contributos (...) da religião cristã para a liberdade». Começando por aqui: o papel da ICAR nessas transições para a democracia não foi de as apressar; foi de as atrasar. O apoio da nomenclatura católica ao fascismo português foi indefectível, com uma ou duas excepções (honrosas) devidamente denunciadas à PIDE pelos superiores hierárquicos. O 28 de Maio iniciara-se em Braga, capital católica de Portugal, no momento em que aí tinha lugar um «Congresso Mariano», o qual foi visitado pelos golpistas reaccionários para recolherem conselhos e um apoio que foi adequadamente recompensado a seu tempo. O papel evidente da ICAR no nacional-catolicismo franquista, ou a bênção de Pinochet por Wojtyla, são outros exemplos que dispensam mais comentários. Querer passar um
certificado de antifascismo à ICAR é uma ironia de mau gosto de que só John Charles Sword se lembraria.
Quanto a Fátima: só alguém desorientado pelo pior relativismo epistemológico pode considerar plausível a ideia de que o sol pode dançar o fandango quando visto das proximidades de Leiria e manter-se aparentemente imóvel para todo o restante hemisfério. Persistir em «respeitar» essa ideia é renunciar a desmascarar uma mentira óbvia que tem sido mantida para financiar a ICAR (não as «obras sociais» para as quais pede dinheiro ao Estado, mas as suas
faraónicas catedrais) e combater o espírito científico. Espada não pode pretender dar lições de «cavalheirismo» e de «carácter», e simultaneamente transigir com quem mente e promove uma fraude com evidentes objectivos políticos e comerciais. Muito menos me parece que seja digno de cidadãos livres e emancipados andarem a rastejar de joelhos à volta de uma árvore qualquer, mas admito que o britânico conceito de dignidade de John Charles Sword inclua a prescrição dessas práticas públicas. Se for esse o caso, João Carlos Espada é livre de dar o exemplo e rastejar no joelhódromo...
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