sexta-feira, novembro 30, 2007
Quatro anos
Num país em que a TV pública fala das «aparições» de Fátima como se fossem um facto, em que os jornais ainda precedem o nome dos bispos (mas só dos da ICAR) de um reverente «D.», e em que raramente se fala de como pensa e vive essa (afinal...) maioria da população que não pratica qualquer religião, o Diário Ateísta destacou-se por fornecer uma visão ateísta e científica do mundo, reflectir sobre ética e valores a partir de premissas humanistas seculares, divulgar notícias que os jornalistas «religiosamente correctos» escondem ou distorcem, e tratar os membros do clero como pessoas iguais às outras. Nestes quatro anos, o Diário Ateísta ajudou também a organizar três encontros de ateus, duas idas à televisão, publicitou dois livros de autores da casa ou quase, e contribuiu para mudar o modo como se olha para a religião em Portugal.
É de toda a justiça recordar os colaboradores que nos ajudaram a chegar aqui, e que por razões diversas que pessoalmente lamento em cada caso, se afastaram do Diário Ateísta: Palmira Silva, Ludwig Krippahl, Luís Rodrigues, Pedro Fontela, André Esteves, Christiane Assis Pacheco e Mariana Pereira da Costa. E seria falta de educação deixar de agradecer o apoio dos nossos comentadores mais frequentes: gt, 1atento, José Moreira, Ana, D. Frederico da Sé de Braga, Nina the Cat, panúrgio, Veríssimo, kavkaz, Adão Latorre, Satanucho, ateu comunista, FR, entre muitos outros.
Infelizmente, a presença nas caixas de comentários de católicos (leigos e sacerdotes) deseducados pela missa, que cospem óstia e vomitam o seu discurso de ódio, insultos e ameaças, pode obrigar-nos a alterar o modo de funcionamento das caixas de comentários. Chegámos a um ponto em que a tolerância excessiva se tornaria laxismo. O Diário Ateísta tem a singularidade de ser um espaço criado por ateus e para ateus, e portanto não permitiremos que as constantes tentativas de boicote desvirtuem essa intenção. Acima de tudo, estamos aqui para nos divertir.
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terça-feira, novembro 27, 2007
Reflectir o meu ateísmo - Parte 4
A desnecessidade de crerUm dos argumentos mais utilizados pelos crentes é a felicidade que encontram ao descobrirem deus; tal descoberta enche-os de alegria, completa-os, enfim, adquirem um propósito para a vida. Não consigo deixar de sentir alguma angústia sempre que tento alcançar o significado de tais afirmações. Não consigo deixar de sentir alguma revolta quando insinuam que sem a tal descoberta de deus a vida de qualquer um é desprovida de propósito.
Encontrar um propósito para a vida numa fantasia milenar, isso sim, é doentio e, não fossem os convencionalismos culturais, digno de merecer um exame psiquiátrico urgente.
"Crer" e "ter fé" não passam de formalismos culturais para a aceitação do desconhecido e do medo da morte; não passam de máscaras obsoletas com um selo de garantia para a vida eterna, esse desejo simultaneamente tão humano e despropositado.
A mim, o que me enche de alegria, completa e dá propósito para a vida são circunstancias muito mais terrenas e realistas. Não preciso de vidas eternas nem de recompensas post-mortem. Estou muito mais perto de um macaco, de um cão ou de um lacrau do que de deus e essa constatação deixa-me seguro quanto à minha sanidade mental.
No entanto, a pergunta prevalece: mas, qual é o mal em "Crer"? Nenhum, se quem crê tiver noção de que se trata de uma fantasia e guardar essa paranóia para si próprio. Mas, tem todo o mal quando essa crença força que eu tenha que viver pelos padrões morais de quem crê ou quando a fé move montanhas de destruição no formato de guerras ditas santas.
(Publicação simultânea: Diário Ateísta / Penso, logo, sou ateu)
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segunda-feira, novembro 26, 2007
The Golden Compass

Nas últimas semanas, a paranóia cristã tem andado altamente crispada para os lados da terra do Uncle Sam. Em causa está a aproximação da estreia do filme "The Golden Compass" ("A Bússola Dourada" em português), realizado por Chris Weitz, baseado na primeira parte da trilogia "His Dark Materials", de Phillip Pullman.
De facto, Pullman nunca negou que esta trilogia tinha surgido da necessidade que ele próprio sentiu de dar uma resposta à propaganda cristã na obra de C.S. Lewis, The Chronicles of Narnia. Agora que a obra de Pullman é adaptada ao cinema, um formato muito mais cativante para as crianças e adolescentes dos dias de hoje, eis que surgem todo o tipo de opiniões doentias, fundamentalistas e aberrantes que suportam a ideia de que permitir que as crianças vejam este filme é uma espécie de pecado mortal que lhes abrirá as portas ao mundo herege do ateísmo! Independentemente da qualidade do filme ou dos livros (Carnegie Medal, 1995), não deixa de ser bastante sintomática esta reacção dos conservadores cristãos. Uma escola no Canadá teve mesmo o desplante de remover a obra de Pullman da sua biblioteca por o autor ser um ateu confesso! A sugestão de PZ Meyers demonstra bem onde se chegaria se essa regra fosse levada a sério.
"The Golden Compass" é uma história de fantasia que se inicia em Oxford, mas num universo paralelo. O equivalente às almas chamam-se daemons e parece que foram traduzidos para português como génios. Ao contrário das fantasias do nosso universo, estas habitam fora dos corpos e são animais conhecidos de todos nós. Até já descobri o meu próprio génio. Agora, só me falta descobrir o filme assim que estrear. Eu e a restante família também, claro!
(Publicação simultânea: Diário Ateísta / Penso, logo, sou ateu)
sexta-feira, novembro 23, 2007
Resposta a vários argumentos habituais
- O entrevistado afirma que «as pessoas, quando excluem Deus das suas vidas (...) ficam com um vazio, que procuram preencher de várias formas, porque sentem interiormente uma necessidade de ir além do material, do perceptível», e que «essa falta (...) dá lugar a procuras alternativas, como a actual moda dos orientalismos e da New Age, o recurso à Astrologia, a ovnilogia». Em primeiro lugar, desconheço as razões (se é que existem) que levam o entrevistado a presumir a universalidade (e portanto inevitabilidade para cada indivíduo) desse «vazio» que ele perscruta nos outros. Conheço muitas pessoas que jamais sentiram qualquer necessidade de «Deus» ou do «sobrenatural» nas suas vidas (serão mutantes?). Essas pessoas, salvo raríssimas excepções, também não me parecem muito dadas a ovnilogias e budismos. (E, numa nota pessoal, quanto acho que há qualquer coisa por explicar vou aprofundar o pouco que sei de ciência. Haverá forma melhor de encontrar respostas válidas?)
- Seguidamente refere-se outro substituto, as «religiões laicas» ou «crenças políticas». Sinceramente, a bem do rigor deste género de discussões gostaria que as palavras «crença» e «religião» fossem usadas com um significado mais constante. A «crença» na «ditadura do proletariado» substitui a «crença» no «Reino de Deus»? Psicologicamente talvez actuem mecanismos semelhantes, mas num dos casos não se requer a violação de leis da física, e no outro exige-se a intervenção do «sobrenatural». E se o comunismo (o exemplo é do entrevistado) constitui uma «religião» porque inclui «rituais» (o que também é discutível, mas enfim), será que as reuniões de tribunal também são uma religião?
- O entrevistado afirma que «a Ciência não conseguirá eliminar por completo o espaço da crença, da fé», porque «não responde a tudo (...) consegue arranjar uma explicação plausível para o "big bang", mas deixa por explicar o que aconteceu antes». Eu concordo que há sempre espaço para a fantasia humana e para indivíduos com força de vontade suficiente para afirmarem as fantasias mais disparatadas contra toda a evidência disponível. Por exemplo: não posso refutar a existência de unicórnios cor-de-rosa invisíveis que não respiram por cima do meu ombro, não transpiram, nem são feitos de matéria. E também não posso refutar a existência de quinze milhões de passarinhos que andem a voar em bando em redor do universo, trinando o hino nacional e defecando para fora do dito universo. Para o antes do «big bang», as «respostas» da religião tradicional serão melhores do que os quinze milhões de passarinhos porquê? Porque há um clero que vive disso?
- O entrevistado revela-se um relativista epistemológico quando argumenta que «grande parte da nossa estrutura de conhecimento é adquirida pela fé - entendida no sentido lato, de confiança», e que portanto «pessoas igualmente inteligentes e informadas sustentam diferentes visões do mundo e da sociedade». Acontece que duas pessoas que tenham ambas estudado relatividade geral não podem ter visões radicalmente diferentes sobre a curvatura do universo e a sua causa - a menos que uma delas esteja de deliberada má fé. (As «visões da sociedade» são bem mais contingentes, e portanto não entram aqui.) E é bastante diferente acreditar que está realmente a chover e ter fé em que a chuva é causada pelo duende-pai.
- Argumenta-se ainda que «a obsessão com o politicamente correcto é um comportamento tipicamente religioso», e eu tendo a concordar, porque efectivamente a intolerância é típica das religiões. Mas o entrevistado cai no pior relativismo ético quando afirma que «quem sai da ortodoxia do pensamento politicamente correcto» é vítima de «verdadeiros processos inquisitoriais». Neste ponto, que alguém me corrija se estiver enganado, mas será que existe algum país da Europa em que as vítimas do temível «politicamente correcto» sejam sujeitas a estas torturas? Está alguma fogueira acesa no Rossio para queimar quem conta anedotas racistas ou sobre a pseudo-«burrice» das mulheres? Se for esse o caso, declaro desde já a minha solidariedade com essas vítimas dessa ditadura atroz que é a «ditadura do politicamente correcto». Se não for verdade, e o «politicamente correcto» não existir, anda-se a gritar «lobo» sem que este exista sequer.
- Finalmente, diz-se que «uma das consequências da perda de importância das religiões organizadas foi a perda de uma âncora moral para os comportamentos sociais, levando à prevalência de um relativismo moral que conduz à sucessiva degradação dos padrões morais». Começando pelo fim: eu detesto os «padrões morais» das religiões organizadas, nomeadamente (e para não ir mais longe) a defesa do abjecto e «contra natura» princípio abraâmico de que é legítimo matar um filho se houver ordem «divinamente correcta» para tal. Detesto também a ideia de que se deve fazer o «bem» para agradar a uma divindade ou por medo de um castigo «sobrenatural», e acho éticamente preferível fazer o bem por se reconhecer, em consciência, que se deve fazê-lo. E não vejo nenhuma «degradação» de padrões éticos, pelo contrário registo que existe nas sociedades europeias um repúdio pela pena de morte que não existia há duzentos e cinquenta anos atrás, quando se queimavam pessoas na praça pública. E que ainda há cinquenta anos a tortura se praticava, em Portugal, sem protesto visível dos tais «religiosos organizados». E registo também que bater em crianças é agora quase universalmente condenado, enquanto há duas gerações atrás era a norma. Enfim, se as consequências da perda das «âncoras» religiosas são estas, acho bem que continuemos no rumo actual.
segunda-feira, novembro 12, 2007
Reflectir o meu ateísmo - Parte 3
Promover uma laicidade pró-activa
A questão da separação do estado e da Igreja está na ordem do dia nos Estados Unidos. Após o 11 de Setembro, a resposta norte-americana foi, na minha opinião, a pior possível e aquela que melhor serviu os interesses das linhas mais conservadoras de ambos os lados da barricada. Pior do que guerras santas, só mesmo guerras económicas mascaradas de guerras santas. Às religiões serve-lhes a aparente luta contra os infiéis ou fundamentalistas e aos governos assenta-lhes que nem uma luva a máscara dos motivos religiosos. Entretanto, as multinacionais sorriem e o povo chora!
Que no princípio do séc. XXI se vivam cenários como este parece-me lamentável, mas não surpreendente, face aos factos históricos recentes. Mesmo sem 11 de Setembro, creio que a tendência estava desenhada para um aumento da visibilidade das religiões nas sociedades ocidentais. Alguns factores estariam já a contribuir para esse fenómeno, tendo o 11 de Setembro apenas acelerado o processo. Senão, vejamos:
- Desde os anos 70 que na maioria dos países ocidentais se tem vindo a acentuar uma maior descrença no sistema político;
- A globalização também está ao alcance das "religiões privadas" - seitas - tendo permitido que algumas delas crescessem nas últimas décadas para dimensões de fazer inveja à religiões tradicionais em muitos países;
- O extremismo islâmico tem-se propagado por todo o mundo desde os anos do Ayatollah Khomeini;
- A secularização da maioria dos países ocidentais não lhes permite controlar fenómenos de propagação religiosa, quer activos, quer reactivos;
- A incapacidade demonstrada para uma solução política no conflito do médio oriente é um convite a uma resolução patrocinada pelo divino (guerra santa).
A meu ver, é imprescindível que as democracias seculares ocidentais criem mecanismos para se protegerem elas próprias não apenas dos perigos externos mas, principalmente, dos internos. Não defendo um estado ateu, defendo, isso sim, um estado fortemente laico; forte ao ponto de ser pró-activo nessa laicidade e não apenas um mero gestor ou observador.
A liberdade de fé, crença e religião deve existir mas sempre fora de todo e qualquer contexto estatal. As organizações religiosas não devem de usufruir de nenhum benefício fiscal ou legal, devendo o Estado abster-se de qualquer patrocínio ou subsídio às organizações religiosas. Apenas os serviços comprovados de acção social deverão estar enquadrados nesses benefícios em regime de igualdade com outras organizações não religiosas de índole social.
Não devem ser permitidas quaisquer referências religiosas no discurso político, independentemente do órgão de soberania em causa. As cerimónias oficiais devem dispensar qualquer participação de representantes religiosos, devendo a representação religiosa ser totalmente irradiada do protocolo de Estado. Igualmente, aos órgãos de comunicação do Estado - RTP, RDP, etc - deverá estar proibida a terminologia religiosa.
Por último, os partidos políticos e os seus representantes não deverão prestar declarações públicas de favorecimento religioso em períodos eleitorais.
Nenhum destes princípios é contrário à livre actividade religiosa. No entanto, previnem por um lado a utilização da religião como arma política e, por outro, garantem uma equidistância do Estado com todos os cidadãos de qualquer religião ou de religião nenhuma. Repare-se, ainda, que estes mecanismos não só permitem proteger o Estado da influencia religiosa, mas também o contrário. O único compromisso das religiões com o Estado é o de cumprir a lei, tal como qualquer outra pessoa individual ou colectiva.
Admito que esta matéria seja talvez das mais complexas e susceptíveis de causar polémica. Exactamente por isso é que o Estado deve defender, em primeiro lugar, os direitos implícitos nos seus princípios de secularismo e laicidade. Só depois, então, é que o Estado se deve comprometer a garantir outros direitos também fundamentais, como liberdade de fé, culto e religião.
(Publicação simultânea: Diário Ateísta / Penso, logo, sou ateu)
quinta-feira, novembro 08, 2007
Quem é mais ateu?
Na Theosfera do padre João António pode-se ler o seguinte texto:
QUEM É MAIS ATEU?
A superfície dá um tipo de resposta. A profundidade oferece outro.
Quem é mais ateu? O descrente que se assume? Ou o crente que se presume?
Não será que o ateísmo dos ateus, no fundo, é mais uma denúncia de muitos crentes em Deus do que uma negação do Deus dos crentes?
A leitura dos livros de Richard Dawkins e Michel Onfray tem-me feito pensar deveras e interrogar bastante.
Quando se contesta a presença pública da fé será que há um incómodo perante Deus ou um desencanto diante do contra-testemunho dos crentes?
E, desse modo, não poderá ser o ateísmo uma busca de autenticidade? Não poderão estar, portanto, muitos ateus mais próximos de Deus?
Não serão as suas perguntas mais consistentes que as nossas respostas?
Acho todo o texto muito interessante, embora a ideia de poder estar mais próximo de deus me deixe um bocado perplexo! Em relação à última questão, acho-a fenomenal; sempre achei que a resposta é um claro "Sim".
(Publicação simultânea: Diário Ateísta / Penso, logo, sou ateu)
terça-feira, novembro 06, 2007
Reflectir o meu ateísmo - Parte 2
As insuficiências do agnosticismo
Existem algumas razões para me definir como ateu e não como agnóstico. O agnosticismo, nas suas diversas interpretações, presume pelo menos um dos seguintes princípios:
- Deus é insolúvel
- Deus é irrelevante
Sobre a insolubilidade de deus
Quanto a deus ser insolúvel, parece-me que se trata de um princípio filosófico bastante razoável. Afinal, o conceito de deus (ou deuses) é movido e justificado pela fé, não pelo conhecimento. Tentar racionalizar crenças da mesma forma que se criam representações matemáticas da realidade é absurdo.
Existe, depois, uma armadilha perigosa que é procurar responder à questão de deus quando esta engloba em si própria uma variedade de personalidades e representações quase infinitas. Deus não terá sido o primeiro a sofrer de personalidade múltipla, mas é seguramente o paciente desse distúrbio mais famoso da história. Tentar argumentar racionalmente contra essa multiplicidade é, uma vez mais, infrutífero e inconsequente. A própria multiplicidade de representações encerra em si todos os argumentos de contradição, se não mesmo, de absurdo.
Resumindo, reconheço que é, de facto, impossível provar racionalmente a existência ou inexistência de qualquer deus ou deuses. Claro que teremos que colocar todos no mesmo saco: o deus de Abraão, Zeus, Osíris, Thor, Shiva ou o adorável Baco. Resta-me, portanto, a convicção de que face à ausência de demonstrações credíveis de qualquer deles, todos, sem excepção, são apenas fruto de mentes criativas impregnadas de fé.
Sobre a irrelevância de deus
Considerar a tarefa de questionar a existência de deus uma tarefa desnecessária é outra linha do pensamento agnóstico. Opinar que é irrelevante para a nossa experiência - enquanto seres vivos conscientes do mundo que nos rodeia - parece-me demasiadamente insustentável por duas razões essenciais.
Antes de mais, questões fundamentais como "o que somos?", "porque somos?" ou até mesmo "somos?" terão respostas e significados totalmente diferentes consoante deus exista ou não. Logo, na elaboração das respostas a essas perguntas o valor da variável "deus" terá que ser sempre equacionado e poderá ter um peso determinante nas respostas obtidas.
Por outro lado, as organizações religiosas sempre tiveram - e continuam a ter - uma influência nas diversas sociedades demasiado grande para que os argumentos basilares das suas doutrinas não sejam questionados.
Assim, discordo em absoluto desta corrente agnóstica que considera de menor importância a questão de deus.
Outras considerações que descredibilizam o agnosticismo
O processo de dúvida inerente à maior parte do ideal agnóstico é, claramente, do ponto de vista filosófico, um processo eficiente. Mas, do ponto de vista prático as suas limitações são evidentes. Se não fossem seria, então, possível viver com esses princípios de dúvida em todos os aspectos da nossa vida. Não é o caso. Questionar sempre que acordamos se é o último dia de vida que temos, se a Terra vai suspender o seu movimento de rotação espontaneamente ou se seremos um alvo preciso na queda de um meteorito são também dúvidas válidas, questões insolúveis. Se vivermos em função dessas dúvidas o mais provável é sermos considerados lunáticos ou esquizofrénicos. Aplicamos, implicitamente, a probabilidade experimentada. Sabemos que a probabilidade de responder acertadamente é muito maior num caso do que noutro, de tal forma que simplesmente ignoramos a probabilidade menor - muito menor - e agimos em conformidade. Não encontro justificação possível para se agir de maneira diferente na questão de deus. Se, face aos conhecimentos adquiridos, não existe a mínima evidência de deus (qualquer deus), então porque viver em função da sua possível existência?
Finalmente, o agnosticismo comete o "pecado" da imparcialidade absoluta. Permite-se dar tanta credibilidade à possibilidade de deus como à sua impossibilidade. Por outras palavras, dá tanto crédito à fé e à crença como à ciência; estranho, pois é esta última que utiliza os mesmos processos racionais em que o próprio agnosticismo se sustenta!
Na próxima parte abordarei a separação entre o Estado e a Igreja.
Parte 1 - O que o meu ateísmo não implica
(Parte 3 - brevemente)
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segunda-feira, novembro 05, 2007
Reflectir o meu ateísmo - Parte 1
Conforme prometi neste post, pretendo escrever uma série de artigos que me ajudem (e aos leitores deste blog) a organizar a apresentação dos motivos, preocupações e objectivos do meu ateísmo. Serão uma série de artigos onde abordarei diversos aspectos do que considero ser basilar no meu ateísmo.
Neste primeiro artigo, vou optar por deixar claro aquilo que o meu ateísmo não significa. Espero, assim, contribuir para uma leitura mais imparcial daqueles que visitam este blog.
Ser ateu para mim não significa ser anti-fé. Respeito a liberdade de cada um para acreditar naquilo que muito bem entender. Contudo, isso deverá acarretar duas responsabilidades: a de assumir os compromissos com essa mesma fé, por um lado, e a de viver essa fé na sua privacidade ou em local (templo) apropriado.
Não sou anti-clero; não encontro razões para acreditar que o exercer do sacerdócio traga consigo uma maior dose de criminalidade ou que existe um maior índice de padres criminosos do que padeiros, informáticos, ateus ou engenheiros civis criminosos. Hipocrisia não é um crime; será, quanto muito, uma questão de consciência.
O meu ateísmo não é politizável, ou seja, não sou ateu por ser deste ou daquele partido nem vice-versa.
Não sou particularmente anti-cristão; o meu ateísmo é absoluto e equidistante de todas as religiões, divindades, fadas, duendes ou unicórnios. Se, porventura, existir uma maior exposição do cristianismo nas páginas deste blog isso é facilmente explicável pela minha também muito maior exposição ao cristianismo, tanto cultural como socialmente, uma vez que nasci, cresci e vivo num país cuja religião maioritária é cristã.
O meu ateísmo não é recente, sempre fui ateu, nunca tendo sentido qualquer necessidade de procurar estímulo espiritual no sobrenatural. Música, um bom livro, observar as minhas filhas a dormirem ou olhar o céu à noite sempre foram suficientes para me encher de prazer, satisfazer quaisquer necessidades de contemplação, imaginar e concluir que o mundo é, afinal, tão belo. Respeito (embora me custe a compreender) que outros tenham outro tipo de necessidades espirituais.
Finalmente, o meu ateísmo não é estanque. Estou sempre disponível para uma boa argumentação sobre o tema. Não estou fechado sobre mim mesmo, nem sou dogmaticamente ateu. Muito pelo contrário, reconheço que filosoficamente é arriscado ser-se ateu; mesmo assim, considero que, na prática, faz muito mais sentido. Mas isso fica para a segunda parte. Nela abordarei as razões porque sou ateu e não agnóstico.
(parte 2 - brevemente)
(Publicação simultânea: Diário Ateísta / Penso, logo, sou ateu)
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segunda-feira, outubro 22, 2007
Noves fora... nada!

A fé per si não é o que mais me surpreende na crença religiosa. O que mais me custa a entender é como é que os crentes não se interrogam sobre a multiplicidade de crenças existentes por esse mundo fora. Vou aqui conceder - talvez demasiado - o flanco e partir do princípio que todos os crentes o são convictamente, com a melhor e mais honesta das intenções.
Como é que essa honestidade não os leva a interrogarem-se sobre a plausibilidade da sua crença face à existência de outras? Vejamos, agarremos em dois crentes de quaisquer duas religiões; um deles estará, necessariamente, enganado! Como esta confrontação é válida para quaisquer duas religiões que se escolham, não é muito mais provável estarem todas erradas?
Tentei explicar este raciocínio à minha filha mais nova quando ela ainda tinha apenas 7 anos e ela percebeu. Como é que gente crescida não entende?
(Publicação simultânea: Diário Ateísta / Penso, logo, sou ateu)
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terça-feira, outubro 09, 2007
Afinal, são deuses
Depois de algumas trocas de impressões com o comentador António, fiquei com a ideia que isto de falarmos de deus de uma forma abstracta é simultâneamente perigoso e inconsequente. O António, por exemplo, define deus como sendo a "bondade humana". Há quem defina como sendo o conjunto das forças da natureza. Outros, ainda, definem-no como o criador. As definições são variadas e, provavelmente, impossíveis de enumerar.
Esta característica da crença em deus é perigosa e pode funcionar como uma potencial armadilha na abordagem do ateísmo. Os multifacetados conceitos de deus dão cobertura a equívocos e a mal-entendidos.
De agora em diante, antes de iniciar qualquer discussão, prestarei mais atenção à definição de deus válida para o meu interlocutor. É como entrarmos num jogo em que cada vez que este se inicia as regras mudam consoante o adversário. Vá-se lá entender porquê.
quarta-feira, setembro 19, 2007
Aquilino Ribeiro no Panteão
sexta-feira, junho 08, 2007
Pensamento religioso: o sentido proibido como modo de funcionar
O verdadeiro símbolo do pensamento religioso é o sinal de sentido proibido. Porquê? Porque o que realmente caracteriza um pensamento genuinamente religioso é a paragem no desenvolvimento normal do raciocínio, o estacar perante uma conclusão incómoda, ou até o voltar para trás com medo daquilo que está à frente. quarta-feira, maio 30, 2007
Christopher Hitchens: o quarto cavaleiro do Apocalipse
Richard Dawkins, Sam Harris e Daniel Dennett têm sido, durante os últimos tempos, os nomes mais sonantes na cena internacional a exporem o ridículo e os perigos da fé e da religião. Cada um no seu próprio estilo, têm conseguido captar a atenção dos media, principalmente nos EUA, onde o ateísmo ainda é visto pela grande maioria como uma espécie de doença que coloca na testa o selo "Inferno Express". Por outro lado, pode-se especular que esta recente coincidência de autores sobre o tema ateísmo - e a importância que lhes é dada - não passará de uma reacção social a dois mandatos de G. W. Bush, caracterizados por uma maior teocratização do discurso de Estado e por uma maior influência dos grupos cristão conservadores nas decisões de Washington.
Seja como for, é de salientar a publicação de mais uma obra de relevo a questionar a utilidade e a sanidade do fenómeno religioso. "God is Not Great: How Religion Poisons Everything" é o titulo do mais recente livro de Christopher Hitchens. O The New York Times publicou recentemente um excelente artigo sobre Hitchens e a sua mais recente obra. "In God, distrust", por Michael Kinsley, é uma leitura recomendada. Nota: disponível apenas para subscritores, mas a subscrição é grátis.
(Publicação simultânea: Diário Ateísta / Penso, logo, sou ateu)
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segunda-feira, maio 28, 2007
A superfície e o fundo
quinta-feira, maio 24, 2007
Brief History of Disbelief

Há muito tempo que tentava descobrir esta série da BBC apresentada por Jonathan Miller. A história do ateísmo apresentada de uma forma séria, sem sensacionalismos, com a opinião de vários pensadores da actualidade. Considero esta série, composta por três documentários (aprox. 1 hora cada), indispensável para um entendimento da evolução do ateísmo ao longo dos tempos.
Aproveito para recomendar que explorem o veoh.com. O leitor é muito bom, pode-se fazer o download dos filmes, criar canais, etc.
- Brief History of Disbelief, parte I
- Brief History of Disbelief, parte II
- Brief History of Disbelief, parte III
Estão ainda disponíveis na íntegra, em separado, algumas das entrevistas feitas para esta série, com o título "The Atheism Tapes".
(Publicação simultânea: Diário Ateísta / Penso, logo, sou ateu)
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quarta-feira, maio 23, 2007
Boa pergunta
terça-feira, maio 22, 2007
Compreender e a Pura Indiferença
Admito que há alturas em que me sinto mais incomodado com o agnosticismo que com alguns tipos de crenças. Já aqui escrevi sobre agnosticismo e penso que ficou bem patente a minha posição em relação à indiferença cúmplice dos agnósticos. Entendo mais facilmente, por exemplo, um panteísta que um agnóstico. Recordo-me ainda quando no antigo fórum do ateísmo.net (Diário Ateísta) se discutia a criação de uma associação e se questionava a inclusão ou não de agnósticos. Por mim, nunca fui favorável a essas misturas!
Quando me lembrei de promover este debate interblogues a distinção entre agnósticos e ateus pareceu-me um tema óbvio para dar o pontapé de saída. Esta é a minha participação no debate e gostaria de começar com uma fantasia.
Imaginem que, numa pequena cidade, um grupo considerável de pessoas estava crente que o Sol se extinguiria dentro de duas semanas, a uma quarta-feira, pelas 16h43.
Não existia nenhuma evidência para tal crença mas a convicção de alguns neste delírio era tão convincente que arrastava uma percentagem significativa dos habitantes dessa cidade.
Para além dos crentes, existiam outros dois grupos de pessoas: os que achavam que a ideia era um disparate, uma vez que não havia qualquer suporte cientifico para temer tal catástrofe, e os que achavam que quer fosse verdade ou não era irrelevante uma vez que, em qualquer dos casos, não tinham ao seu alcance qualquer forma de alterar o destino da nossa estrela.
Com a aproximação da data prevista para a extinção do Sol, o grupo crente começa a viver em função dessa fatalidade, tentando impor rituais para contrariar o destino anunciado. Outros, mais radicais, cientes de que qualquer ritual seria uma perda de tempo, tentam gozar os últimos dias isentos de quaisquer regras de convívio social, recorrendo a violações, roubos e homicídios.
Os que achavam que esta ideia do Sol se extinguir não passava de um disparate opunham-se e preveniam contra a loucura e insanidade dos crentes. O outro grupo, limitava-se a observar, expectante, o desenrolar dos acontecimentos.
Esta história demonstra bem a atitude diferente de crentes, agnósticos e ateus em relação à realidade. Enquanto que os ateus se manifestam por considerarem que não existem quaisquer evidências que justifique qualquer crença num qualquer deus ou divindade, os agnósticos procuram o refúgio na ignorância – por entenderem ser impossível uma resposta à questão divina - ou no desinteresse – por acharem que qualquer resposta é insignificante para as suas vidas.
Assim, o que aparentemente poderia parecer a atitude mais racional, não passa, isso sim, de uma forma envergonhada de desistir da procura da verdade ou de uma presunção de que essa mesma verdade seria inconsequente no entendimento do Homem e do mundo. Como é possível pensar que não seria determinante para a humanidade provar a existência ou inexistência de um ou mais deuses?
Ilusoriamente racional, o agnosticismo não passa de um entrave ao conhecimento. Tivesse a humanidade ao longo dos séculos confiado tão pouco na sua capacidade de descobrir e de saber e a roda nunca teria sido inventada. Tivesse a humanidade nos séculos mais recentes achado que determinadas questões não eram importantes e a esperança de vida não teria mais que duplicado nesse período.
Eu entendo que o agnosticismo pode ser muito mais apaziguador, conciliador ou democrático que o ateísmo. Só que a verdade não se define por maiorias! Racionalidade é procurar encontrar a Verdade. Racionalidade é procurar as explicações, justificações e a compreensão do mundo que nos rodeia. Tudo o resto ou é delírio ou pura indiferença.
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domingo, maio 20, 2007
Convite para um debate interblogues
O método para participarem está descrito aqui. Obrigado.
Etiquetas: agnosticismo, ateísmo, debates
sexta-feira, maio 11, 2007
O Extremismo Ateu
Às vezes perguntam-me porque é que me envolvo nestas coisas da religião e do ateísmo, se estar sempre a falar do mesmo não é também uma forma de extremismo e como é possível que eu tenha algumas ideias típicas de extremismo ateu...
Essas perguntas, acima de tudo, têm a arte de me desiludir. Desiludem-me porque deixam bem claro que quem coloca essas perguntas não vê diferença nenhuma entre escrever um blog e fazer-se explodir dentro de um autocarro em hora de ponta, entre defender o ensino da ciência e apedrejar uma mulher pela suspeita de adultério, entre expor o ridículo das mitologias modernas e o rastejar até um altar para pagar favores divinos, entre defender a separação do estado e da igreja e levar a cabo guerras internacionais em nome de uma personagem de ficção ou entre defender o humanismo e, em nome da vida, colocar bombas em clínicas de interrupção da gravidez...
Enquanto houver pessoas que não vêem estas diferenças faz todo o sentido ser um ateu; extremista, se quiserem.
Etiquetas: ateísmo, extremismo
quarta-feira, maio 02, 2007
Números do Ateísmo

Neste estudo internacional sobre a percentagem de crentes e não crentes em cada país, Portugal encontra-se num assustador 43º lugar, com números muito semelhantes aos Estados Unidos e atrás de todos os seus parceiros europeus.
Mais importante do que entender as causas para tais resultados - embora também seja importante - é ganharmos consciência de que vivemos num dos países mais conservadores da Europa no que respeita à importância do papel que a religião desempenha na nossa sociedade. É por isso urgente provocar e espicaçar a sociedade de modo a contribuir para a alteração desta realidade.
Embora eu não seja um defensor da "evangelização ateísta", a desmistificação da fé através da promoção da ciência e da divulgação do ideal secular deverá ganhar novos impulsos e perder a vergonha de ir à luta contra a ignorância e o ridículo.
A oposição clara a qualquer infracção à laicidade do Estado não é suficiente. Muitos aspectos da nossa vida não estão dependentes do Estado. Em cada um de nós, na nossa família, no nosso grupo de amigos, nos nossos colegas de trabalho, há sempre algo mais que pode ser feito. Fazer nada é contribuir para que também nesta matéria nos mantenhamos na tão familiar cauda da Europa.
(Diário Ateísta / Penso, logo, sou ateu)
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